Colorir

“Não quero o mundo pronto para colorir. Quero fazer o meu desenho e rasurar inúmeras combinações de tintas, a fim de que possa ver a arte final com meus olhos, nem que no final só eu possa ver sentido naquelas cores. Não aceito que me digam em que mundo viver. Vivo neste mesmo, pela metade, incompleto. Não preciso que me digam a quem se reportar quando precisar, sem bem quem é o único que pode me sustentar. Não quero ser banhado em ouro, pois perderia toda minha saliva já gasta em nome da vida simples. Não quero nem o bolo, nem a receita, sei bem quais ingredientes usar. Não quero a mentira das simpatias deste mundo. Não quero gente rica e bem sucedida me dizendo o que fazer. Não quero homens de sucesso me igualando a eles. Não quero ser cuidadoso com os que me enganam com suas hipocrisia. Não quero as radicalidades. Não quero conquistar nada, nem ninguém. Não aceito troco de moeda roubada. O ‘Não’ é pesado, mas é preciso, por favor, entendam isso, minha gente! Obrigado, mas aceito quem eu sou.”

Trechos de Murillo Leal

Sair

‘Às vezes eu penso: “- Não quero mais ‘brincar’ de ser cristão, não quero mais amar as pessoas, não quero mais ouvir gente dizendo que consegue tudo pelo esforço próprio, não quero mais explicar que ser cristão não é ser como os pastores da televisão, não quero mais gente que se diz teísta acreditando em tudo que vê pela frente. Não quero…”, dai vem o Espirito Santo e me diz: “-Larga mão de ser mané, SEU ADÃO! Vai viver o que eu disse para você viver.”

Então, eu retruco: “-Mas está difícil, não está nada fácil.. a galera tem prometido carros, empregos, bons salários, dinheiro, tem alimentado nas pessoas um desejo de ser mais, maior, tem enchido as igrejas com discurso motivacional, tem fingido ser uma comunidade só com gente feliz, tem entretido as pessoas, tem criado uma mente religiosa, criado maneiras de manipular os jovens com bobagem, tem feito verdadeiros show pirotécnicos, tem arrecadado mais gente, tem confundido crescimento com resultado, tem financiado heresias.. eu não consigo…”.

Ele faz um sinal de que está me compreendendo e me responde: “-É assim que acontece, amado.”, dai eu replico:”- Mas é mais fácil prometer o mundo para a galera..”, e Ele, já com um sorriso sarcástico no rosto, fala: “-Mas é o diabo é quem da tudo, Deus não fica mimando filho não, ele sabe bem do que você precisa para ter saúde no relacionamento com Ele.”

Assim, eu respondo: “-Então, ainda bem que Deus é esse cara, que felicidade por isso, e como eu posso encontrar Ele? Na igreja? Na religião? Fazendo boas coisas?”, ele aliviado me diz: “- Não! Feche a porta do seu quarto e em segredo clame por Ele.” Dormi pensativo, pois agora, sei bem Quem olha por mim.’


Murillo Leal

Moribundo



“Nós temos morrido. Sei que pode não parecer novidade, mas insisto. Não entendemos onde isso vai parar. Não compreendemos nossa finitude. Não sabemos lidar com isso.

Moribundos em amor, caímos no moralismo disfarçado de virtude, para suprir nossas falhas, fazemos isso o tempo todo. Somos seres em direção da fuga. Somos o fim de um começo brilhante.

Entregues a razão, temos diminuído os efeitos da loucura paradoxal do amor. Temos sempre algo para vomitar para expor nossa incredulidade quanto ao efeito do amor. Somos rápidos em critica-lo, e vagos em aceita-lo. Materializamos o inanimado. Sepultamos o ar que tem nos faltado.

Cegos pelo ativismo ignorante, esquecemos da gratuidade da vida. Passamos tempo com caridade que gera-nos um orgulho. Fazemos nossa parte como quem tem interesse no reconhecimento. Somos como o sujo que lava somente o pé antes de deitar para não sujar o lençol branco. Fazemos para merecer.

Extintos em realidade, sacralizamos o visível. Fazemos dos olhos, sacada para o mundo interno. Abrimos a porta para o ventos da desordem. Como guia de cegos, tapamo-lhes os olhos e marchamos em direção da arapuca da vida.

Firmados pela convicção de quem somos, excluímos os demais. Fazemos pequenos clubes. Reunimos força para expulsar o diferente. Juntamos ânimo em ignorar. Levantamos os tijolos da falta de misericórdia e de amor e colocamos o cimento da auto-suficiência.

Caímos sempre na tentação maior. Não admitimos o fracasso existencial. Não somos sinceros com a verdade de quem somos. Arrendamos terras para o engano. Cercamos a vida com a segurança do dinheiro. Saímos para o mundo e deixamos a portal da nossa vida aberto para quem quiser entrar, sentar e jantar na nossa mesa. Aceitamos fácil o que a mente, a razão, a certeza e o orgulho nos oferece. Assinamos o nome completo na proposta da morte.”

Trechos de Murillo Leal

Um escape da angústia


“Por questão de segurança, me reservo o direito de não opinar a respeito de correntes que levam e lavam a mente dos demais.


Por questão de segurança, tranco em mim um lamento diante do mundo do “Eu posso conseguir ser alguém melhor”

Por questão de segurança, fico impossibilitado de andar na contramão do senso comum, mas não me rendo a ele.

Por questão de segurança, me faço de tonto e finjo engolir sapos que atravancam na minha goela.

Por questão de segurança, não ouso discutir com afinco com determinadas radicalidades.

Por questão de segurança, prezo pelo bem estar da minha mente não sendo invadido pela boca alheia cheias de falsas verdades.

Por questão de segurança, viro um covarde diante da minha percepção da realidade.

Por questão de segurança, não anelo andar entre as filosofias mais admiráveis, as pessoas mais reverenciadas, as certezas mais convictas.

Por questão de segurança, não anseio mais participar de reuniões com gente cegada por qualquer tipo de fanatismo.

É só por questão de segurança, que me asseguro que acredito na minha falência para alcançar a serenidade de quem sou e me localizar no mundo tão imperfeito. “

Murillo Leal

Próximo

“Olhou por cima dos óculos. Via de perto seu rosto mas era distante, em palavras. Sentia o cheiro da falta de prioridade, e exalava a tranquilidade e a segurança equivocada. Distância não trata de longinquidade, mas de ser e estar. Lembrou para si mesmo em pensamento: ‘Há uma diferença abissal entre estar próximo e fazer-se próximo.’”

Trecho de Murillo Leal

Chocolate


“A mãe costumava dar o chocolate predileto ao filho. Era um pedacinho por dia depois da janta, e as vezes até mais. O menino era ma acostumado. Um dia, a mãe estava ocupada demais e esqueceu do agrado dele. O filho ficou triste, mas não disse nada. Dali em diante a mãe se tornou cada vez mais ocupada para ele. O filho ia se entristecendo, crescentemente. A mãe notou que o filho estava cada dia mais magro, murcho e triste, mas era tarde demais para oferecer o chocolate, ele já tinha se acostumado a viver sem.”

Trechos de Murillo Leal

Desconstruir


“Peço a Deus para que me desmonte. Assumo os prejuízos desse mundo, encaro os narizes torcidos, fechos os olhos e me proponho a ouvir os gritos esgoelados que surgem dos corações ásperos, dou o cumprimento as mãos geladas dos que me golpeiam pelas costas, recebo no rosto os muros da discórdia, aceito por força maior os enxovalhos gratuitos. Não chorar é pedir demais, mas deixo sobre meu lamento, a grandeza de ter perdido tudo em nome da revelação de quem sou. Tenho me visto chicoteado por preconceitos, por palavras, por falsos julgamentos, por injustiças pesadas, mas entendo que me tornei quem sou porque alguém foi tudo que eu precisava. Caia sobre mim o mundo e sua grandeza, pois só assim saberei renascer. Peço a Deus, a verdade.”

Trechos de Murillo Leal

Integros



“Ninguém pode ser tão pequeno que tenha vindo ao mundo com a missão de vencer ou perder. O propósito é que viemos para lutar. Os vencedores são mentiras da meritocracia ridícula, o perdedores são aqueles derrotados pela baixa estima. No meio disso tudo existem os sábios, que lutam pelo simples prazer de experimentar a vida sem merece-la como virtude e nem sem perde-la pelas dificuldade. Não existem maiores e menores, existem íntegros.”


Murillo Leal

Feliz dia da mentira, mentiroso!



“É verdade, você é uma mentira. Não te contaram? Pois é. Talvez você seja aquela mentirinha de extimação que todo mundo tem e se arrepende, ou talvez voce goste mesmo saber que é uma calúnia. Não sei, mas entendo que o motivo simples para fazer de você um mentiroso é que você é cheio de verdades. Talvez você seja um poço de convicções, e não admite que há enganos sobre si mesmo, sobre os outros, sobre a vida, sobre quem é, sobre tudo que acredita.

Aliás, existe ainda uma verdade? Claro que não, afinal, em um mundo plural como o de hoje falar em verdade é tido como diminuir o mundo e seus leques de possibilidades. O mundo plural pode ser bom, mas pode provocar uma ideia irreparavel de que o mundo é feito para muitos, mas até agora conseguimos no maximo democratizar os achismos e o besteirol particular. Por exemplo, já ouviu alguem com aquele papo: ” Não existe ninguem certo, apenas o que eu acredito e o que outro acredita, e são coisas diferente, mas nós precisamos nos respeitar”?

Esse pensamento pós moderno atual tem dado abertura para colecionarmos “verdades” a fim de que numa multipla escolha, escolhemos todas as alternativas como garantias de que possamos sempre acertar. Funciona assim: Se amanhã eu descobrir que minha verdade era irreal, eu ainda posso acreditar em outras verdade sem sofrer com isso.

O maior problema da mentira que há em nós, é na realidade o excesso de confiança em nossa verdade. A sentença é: Se vivemos em meio de tantas verdades não precisamos de uma única e podemos sempre recorrer a verdades distintas e variadas sem sentir culpa de ter feito a escolha errada. É simples pensar com a cabeça pós moderna, pois ela diz que nesse mundo as verdade são descartaveis, se não me serve mais eu a elimino e busco no “pacote de verdade” alguma outra que possa me ser mais útil para o momento. É um ecumenismo racional.

No fundo, no fundo somos aquela péssima “mentirinha do bem”, que parece inofensiva, mas é severamente perniciosa. Gostamos de ser quem sempre queriamos ser, mas de fato, somos aquilo que não parecemos ser. É como se com esse discurso pluralista disesssemos: Eu reconheço que não sou tão feliz assim, mas talvez se eu proporcionar um cenário artificial, todo montado e arquitetado de felicidade, posso acreditar que sou alguem que vivo a verdade. Parabéns, aos mentirosos como nós!”

Murillo Leal

QUEM DERA…

“Quem me dera se a minha religião fosse apenas dar pão aos pobres, isso a tornaria tão simples de ser realizado, e faria com que eu me sentisse alguem importante para o mundo, faria com que eu fosse alguém “bonzinho”. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se a minha religião fosse trocar um relação de obrigações e benefícios com uma divindade ao ponto de que eu oferecesse meu desempenho a ela, e então ela me faria todas as coisas, assim era só eu ter uma performance religiosa invejável que teria tudo. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se a minha religião fosse ir aos finais de semana e passar apenas duas horas cantando, gritando, orando, chorando, pois assim, era precisaria apenas ser um ator dominical. Eu sairia com a sensação de que cumpri com minha obrigação. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se a minha religião fosse apenas dar uma porcentagem do meu salário para uma instituição, pois assim, eu daria por medo de que algo de ruim me acontecesse se acaso der. Eu seria disciplinado e escravizado. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se minha religião escolhesse como líder uma pessoa que tivesse um trejeito comum, um linguajar próprio, que quisesse estabelecer aquilo que eu posso e não posso fazer, pois assim, seria mais confortável me submeter as regras autoritárias, e não questionar se estas normas estão na sagradas escrituras ou não. Eu seria mais quieto. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se a minha religião projetasse na televisão verdadeiros shows da fé, pois assim, utilizaria como ferramenta publicitaria para lotar minha igreja, e todos seriam conhecidos como “mais santos”, como aqueles que são empenhados naquilo que acreditamos ser “causas de deus.” Eu seria uma pessoa de sucesso. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se minha religião permitisse com que pessoas acumulassem tanto dinheiro que fosse morar em grande mansões de condomínios fechados, pois assim, eu poderia usar como desculpa que não vejo a pobreza ao meu redor e que não consigo olhar para os miseráveis e me solidarizar com eles. Eu viveria no mundo sem pobreza, tristeza e problemas. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se Meu salvador não tivesse morrido numa cruz desastrosa, não tivesse sido cuspido no rosto, não tivesse passado pelos açoites dos romanos, não tivesse uma morte lenta de dolorosa, não tivesse carregado sua própria cruz nos ombros, mas fosse alguém que me desse tudo que eu quero como eu quero a hora que eu quero, e sobre tudo me desse mais dinheiro, mais bens matérias, mais curas, mais milagres a cada dia. Eu seria alguém preso a um amor condicional. Seria fácil ser cristão.

Quem me dera se a minha religião fosse mais religiosa, fizesse com que eu pegasse um microfone e fosse para uma praça, colocasse adesivos com versículos no meu carro, fizesse eu compartilhar fotinhas fofas e versículos nas redes sociais. Eu sentiria que estou cumprindo meu papel, sem muito esforço e sem precisar viver o que digo. Seria fácil ser cristão.

Quem nos dera se a nossa religião projetasse sobre nós a vida de independência de Deus, do amor dele, da sua graça, pois assim, eu vestiria minha capa de cristão só nas horas que achasse melhor. Seria fácil ser cristão.

O amor que veio somente de Deus, através de Jesus, não pede nada em troca a não ser a convicção de que sozinho não somos nada, e abandonássemos essa nossa tendencia de querer ser Deus das nossa vidas. Eu queria ser como Jesus. Amar incondicionalmente a todos, reconhecer o Pai como tudo, e usufruir da tranquilidade de que tudo está no controle Dele. Quem nos dera, quem nos dera…saber quem somos.”

Murillo Leal

Síndrome do Dr House

Há muito tempo eu não via um personagem tão bem construído quanto o “House” interpretado por Hugh Larie. Não pela bela atuaçãor, nem pela característica marcante do personagem, mas pela verdade que ele representa a sociedade de hoje em dia.

House é um homem cético, auto-suficiente, extremamente sarcástico, que apresenta uma frieza incomodadora, e é o mais belo calculista que conheci na televisão. Tem comportamento de vilão, mas a carinha de mocinho. Ele é um médico, mas por um golpe de ironia,sofre de um problema em uma das pernas que além de causar muita dor, faz com que  o personagem seja um viciado em analgésico, pois a enfermidade é incurável. Um dilema interessante para um “semi-deus” da medicina.

Apesar de se tratar de uma série de televisão, o caráter do House tem sido idolatrado por muitas pessoas de várias idades, e há até uma veneração colocando o personagem como um exemplo a ser seguido, pois o mais importante é que ele é um médico formidável, e tem seu reconhecimento. A sociedade do mérito aplaude caras como ele, enquanto engana aos tolos que acham que segui-lo é exemplar.

Talvez a maioria das pessoas que o admiram quisesse, na verdade, fazer com que seus defeitos sejam esquecidos frente a sua competência, mas sabem que isso seria impossível, pois ser bom também necessita ser equilibrado emocionalmente.  Principalmente nas redes sociais, existe uma onda que celebra a rudeza, a frieza, e o ceticismo de Gregory House como se fosse a solução de resposta para o mundo, onde elas não são nada nem ninguém.

As duas máximas prediletas do doutor é ” Everbody lies” ( Todos mentem)  e ” Peoples not change” ( As pessoas Não mudam), com essas duas frases é possivel fazer com que o telespectador olhe a seu redor e note que o mundo é realmente construido por mentiras e que quase não sofre mudanças e assim tambem são as pessoas. O problema disso é que quem geralmente assume como verdade o que House diz, cria um certo distanciamento dessas verdadee não se pergunta: Pera ai, mas quem é “everbody”, quem são essas “Peoples”? Há um impressão que eu não faço parte dessas pessoas, afinal eu sou um competente, e sem mim, o mundo provavelmente seria pior. E se não for eu, provavelmente muitas pessoas não seriam curadas. Uma soberba auto-sugestão de que sou insubstituivel.

E assim, cada vez mais  as pessoas vão criando um altar para si próprias onde só é admitido aqueles que me veneram, onde eu só tenho amor por aqueles que me admiram, onde eu dou respostas convencidas para quando me pegar em um uma situação de fracasso, onde eu estou mais preocupado em me reafirmar quem sou a ter que me render a minha humanidade torpe e minhas mazelas. House prefere animais, eu prefiro pessoas. House prefere a medicina, eu prefiro os milagres. House prefere ter poucos amigos que o procurem, eu prefiro procurar ter amigos de verdade. House prefere afirmar que é bom o bastante, eu prefiro entender que não vou longe sozinho. House prefere apostar todas suas fichas em si próprio, eu prefiro dar créditos quantas vezes precisar aos outros. House é detestável, eu também, mas não me orgulho disso.

O que tem no house é um pouco de vazio, um pouco de remorso, um pouco de sentimento de auto-justiça, um pouco de tolerância zero, o que resume o house e o que nos faz admirar é ter a impressão de que nós nao precisamos mudar para que as pessoas nos admirem, não precisamos mais renunciar, não precisamos mais perdoar, não precisamos mais nos rebaixar, agora, o ódio não é mais tão ruim, e você não precisa mais mudar de opinião, voce não precisa mais deixar sua teimosia de lado, você não precisa deixar de mentir, você só tem que convencer as pessoas a te amarem obrigatoriamente pelo que voce tem de melhor. Uma grande mentira!

Desculpem-me, mas eu não quero a vida solitária dos frios e calculistas, eu não quero a certeza de que sou bom demais no que faço para que não caia no engano de me achar alto e auto-suficiente, eu não quero o ceticismo dos homens que pensam ser detentores de sua própria vida, eu não quero as pessoas me admirando unicamente pelo que faço de melhor, mas anseio que tenha a quem recorrer na hora da dor, eu não quero passar a vida toda sob efeito dos analgésicos que dão a sensação que a dor acabou, mas no fundo ela vai voltar a qualquer hora, eu não quero ser um ser humano machucado pela sensação de que falta sempre alguma coisa para que eu alcance a felicidade, eu não quero ser uma pessoa que desempenha muito bem seu lado profissional, mas  é e emocionalmente imatura, eu não quero ser atingido pela síndrome do Doutor House. Deixo o House para a ficção, e vivo a realidade que tem para ser vivida e encarada.

Murillo Leal

Dureza interna

‎”Aos fanáticos religiosos, sobra seu orgulho próprio e o desprezo de ser menor que a graça universalmente distribuída. Aos supersticiosos, sobra apenas a intocável sorte e o engano da realidade. Aos auto-suficiente, sobra apenas a difícil missão de tolerar a si mesmo e a fraqueza das convicções. Aos rebeldes sem causa, sobra apenas sua inconformidade sem base e sua falta de sabedoria. Aos mortos de espírito, sobra apenas o que os olhos veem e a força limitada dos seus braços. Aos caráteres performáticos sobra a finitude da vida e a certeza da morte. Aos valentes dessa vida, sobra o peso da vitória obrigatória e a falta de misericórdia a quem precisa. Ao mundo, um pouco menos dele.”

Trechos de Murillo Leal

“Não há muito o que fazer caso se faça tudo que se poderia ter feito. Sobra a prece, a vontade de falar sem destinatário, professar sem ter religião, resmungar sem saber ao menos se será ouvido, atendido, escutado. Sobra a súplica do desespero. Sobra os espelhos. Sem ter lugar no mundo, mudo minha rota, mudo minha vida. Ouço a voz interior que não é minha, mas vem de algum lugar de mim. Choro mesmo, sem culpa, porque falar mata aos poucos. Recomeçemos todos nós assim mesmo, sem vontade, sem coragem, com amor.”

Trechos de Murillo Leal


“Manter uma participação regular em qualquer atividades religiosas, assumir uma espiritualidade comum publicamente, ser membro de uma classe religiosa, ou viver sobre custódia de métodos excludentes e condenatórios, pouca diferença faz frente a mazelas do mundo. A verdadeira significação da fé tem a ver com libertar-se das suas convicções humanas, abandonar vontades e sonhos egoístas, desconstruir gradativamente o seu caráter teomaníaco; combinar prantos e alegrias; remontar sob a tutela do amor um desejo de multiplicar a integridade, a justiça social; diminuir o radicalismo, a intolerância, o preconceito; somar a paz, a verdade e a vida com propósito, a fim de que fiquemos livres da morte suicida resultadas da nossas vontades e não cair na tentadora garras da iniquidade. A fé não é cadeia, é chave mixa. ”

Trechos de Murillo Leal

‎”Me sinto como criança que não sabe a dimensão do mundo e não quer ele inteiro para si. Quero estar disposto a dividir esse mundo com os moralistas, os infiéis, os altivos, os amargurados, os não-esperançosos, com os pequenos de coração e espírito, não para que reafirme minha segurança de quem sou, mas para aprender com eles o quanto somos indispostos a ceder créditos. Quero ser enganado pelos meus olhos ao ponto de me surpreender com meus equívocos julgamentos. Preciso do afago de saber que esperar não implica em conhecer o final do caminho, mas de confiar nas mãos que te levam até lá. Quero enrijecer a carta de aforia da minhas vaidades, das minhas pretensões, das minhas iniquidades. Quero suspender qualquer auto-ataque a minha própria integridade, para que não caia na bobeira de me promover alguém melhor. Quero sobretudo, reavivar minha velha condição vil, restruturar minha serenidade e estancar minhas infiltrações , relatar minhas bem aventuranças aos sem esperança, reanimar o pulso da minha vocação, restabelecer uma vontade de amar a todo tempo. Preciso, quero, vou em frente quando não der e quando nada impedir, pois viver pelo caos é ousar viver.”

Trechos de Murillo Leal

Conselho

“Dizem os mais esbeltos que beleza tem a ver com saúde, dizem os mais altos que o poder de amedrontar está na estatura, dizem os mais ríspidos que a disciplina vem da surra, dizem os vencedores que o segredo é competir, dizem os mais vistos que o sucesso é trabalho duro, dizem os mais religiosos que prece ouvida é precedida de sacrifício, dizem os mais especialistas que conhecimento é tudo, dizem os mais velhos que uma hora você consegue tudo, dizem os mais afortunados que dinheiro trás segurança, dizem os mais legalistas que a lei mantém a ordem social, dizem os mais enamorado s que a paixão não é passageira, dizem os homens insensatos que bebida é alegria, dizem os mais felizes que acreditar no mundo não o ideal. Tens tomado certos conselhos como verdades ou tem contestado o conceito absoluto das verdades? Tomai para si a razão da serenidade antes que se perca nas proezas das velhas idéias, a sua independência de pensar.”


Trechos de Murillo Leal